Quando a vida melhora, mas algo dentro de você continua sofrendo
- patriciapacanaro
- 16 de jun.
- 2 min de leitura
Existe uma história que escuto com frequência entre brasileiros que vivem no exterior. Ela muda nos detalhes, mas costuma ter a mesma estrutura.
Uma pessoa estuda durante anos. Constrói uma carreira. Torna-se motivo de orgulho para a família. Alimenta sonhos sobre o futuro. Então decide emigrar. Meses depois, encontra-se exercendo uma função que jamais imaginou para si. Não necessariamente porque fracassou. Mas porque, em muitos países, trabalhos considerados simples oferecem condições financeiras que determinadas profissões altamente qualificadas não conseguem oferecer no Brasil.
À primeira vista, parece uma troca racional. Mas o psiquismo raramente funciona apenas pela lógica. Porque não trabalhamos somente por dinheiro. Trabalhamos também para sustentar uma narrativa sobre quem somos. Desde cedo, vamos construindo uma imagem de nós mesmos.
A criança inteligente.
A filha promissora.
O orgulho da família.
A futura médica.
A futura engenheira.
A profissional bem-sucedida.
Essas identificações não desaparecem quando embarcamos em um avião. Elas viajam conosco. E às vezes entram em conflito com a realidade encontrada do outro lado.
O sofrimento, nesses casos, nem sempre está relacionado ao trabalho em si. Está relacionado à pergunta silenciosa que surge diante dele: "Quem sou eu agora?".
Porque, de repente, o diploma perde valor. O status desaparece. As referências ficam para trás. E aquilo que durante anos organizou a própria identidade já não ocupa o mesmo lugar. Existe uma ferida particular nesse processo. Não a ferida da pobreza. Mas a ferida da desidentificação.
A pessoa continua sendo ela mesma, mas já não consegue se reconhecer inteiramente na imagem que construiu sobre si. Talvez seja por isso que algumas pessoas se sintam tristes mesmo quando a vida parece ter melhorado. Não porque sejam ingratas. Mas porque toda conquista também pode exigir renúncias. E algumas dessas renúncias não são materiais. São simbólicas.
Renunciamos a certas versões de nós mesmos. A certos futuros imaginados. A certas fantasias que nos acompanharam durante anos. O problema é que a sociedade gosta de histórias de sucesso. Pouco se fala sobre o luto que às vezes acompanha esse sucesso. Pouco se fala sobre a dor de perceber que realizar um sonho não elimina automaticamente todos os conflitos.
Talvez amadurecer uma escolha seja justamente isso: Reconhecer que ela trouxe ganhos importantes, sem precisar negar aquilo que também foi perdido. Porque nem toda perda é visível. E algumas das mais profundas acontecem justamente quando a vida parece estar dando certo.

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